São João Paulo II e as mulheres: o que esse Papa nos ensina?

 

Alvo de muitas discussões, a dignidade e a vocação da mulher na Igreja foram temas muito estudados pelo Santo.

 

Se você é mulher e católica, provavelmente já se viu em alguma conversa sobre qual o papel da mulher na Igreja. De vez em quando, surgem discussões sobre a representatividade e o protagonismo feminino. Afinal, qual é a vocação da mulher? Para tirar suas principais dúvidas sobre o assunto, recorremos a alguém que dedicou vários anos ao estudo do tema: São João Paulo II.

Embora alguns o vejam como alguém que não dava o devido valor às mulheres, seu trabalho mostra o contrário. Em vários escritos, como a Carta Apostólica Mulieris Dignitatem, de 1988, e a Carta às Mulheres, de 1995, o Papa já abordava questões como essa.

Além disso, sempre ressaltou que, na fé cristã, a dignidade humana não parte do poder ou da autoridade de alguém, mas, sim, do amor. E é a partir desse amor – que é recebido de Deus e deve ser dado aos outros – que todos são chamados a viver sua vocação.

 

A mulher segundo São João Paulo II

 

Para lançar luz sobre a dignidade da mulher, temos que  voltar ao início de tudo. Criada à imagem e semelhança de Deus, é colocada ao lado do homem para ser sua companheira, em igual grau de humanidade. “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne de minha carne!” (Gen 2,23). Ambos são seres livres e racionais, capazes de conhecer e amar a Deus e chamados à felicidade plena.

Porém, o pecado original distorce essa relação e ofusca a “imagem e semelhança”. Apesar disso, como criaturas únicas, desejadas pelo Pai, homem e mulher continuam sendo chamados a imitá-lO. Assim, seguindo os passos de Cristo que se entrega na Cruz, só podem se encontrar por meio do “dom sincero de si mesmo”

Falando especificamente da mulher, ela conta com uma característica especial, que a diferencia do homem: a feminilidade. Essa é sua grande riqueza, que a faz olhar com sensibilidade para as situações, enxergando a todos com os olhos do coração. 

A mulher tem a missão de cuidar não apenas “do homem”, mas da humanidade como um todo, lutando por sua salvação e pelo seu bem.

Por isso, o Papa alerta, na Carta Apostólica Mulieris Dignitatem:

“A mulher […] não pode tender à apropriação das características masculinas, contra a sua própria « originalidade » feminina. Existe o temor fundado de que por este caminho a mulher não se « realizará », mas poderia, ao invés, deformar e perder aquilo que constitui a sua riqueza essencial. Trata-se de uma riqueza imensa”.

 

A vocação

 

A partir desse valor único, surgem as duas dimensões da vocação da mulher: a maternidade e a virgindade, cada uma com sua beleza própria. 

A primeira é uma participação direta na criação, sinal da aliança com Deus. Como ressalta a autora Alice Von Hildebrand, enquanto todas as coisas materiais feitas pelo homem um dia desaparecerão, a alma gerada no ventre materno é eterna. E essa é uma graça inestimável.

Já a virgindade é uma entrega total a Deus, que se torna o Esposo. É uma renúncia ao matrimônio e à maternidade física, mas que abre portas para a vivência da maternidade espiritual, como no cuidado aos doentes, às crianças e aos mais necessitados.

“Uma mulher consagrada reencontra desse modo o Esposo, diverso e único em todos e em cada um, de acordo com as suas próprias palavras: « tudo o que fizestes a um destes … a mim o fizestes » (Mt 25, 40). O amor esponsal comporta sempre uma singular disponibilidade para ser efundido sobre quantos se encontram no raio da sua ação. […] Na virgindade, tal disponibilidade está aberta a todos os homens, abraçados pelo amor de Cristo esposo.”

Em Nossa Senhora, essas duas realidades se encontram e se complementam. Ela é a Virgem que se tornou Mãe do filho de Deus e, por isso, inspiração máxima de como deve ser vivida a vocação feminina.

 

Maria, modelo perfeito de mulher

 

Se, pelo “sim” de Eva, o pecado entrou no mundo, pelo “sim” de Maria, a Salvação veio até nós. Nossa Senhora soube entregar-se inteiramente a Deus, colocando-se como “serva do Senhor”. Ao fazer isso, encontrou sua vocação, como o Papa ressalta na Carta às Mulheres.

“É por obediência à Palavra de Deus que Ela acolheu a sua vocação privilegiada, mas nada fácil, de esposa e mãe da família de Nazaré. Pondo-Se ao serviço de Deus, Ela colocou-Se também ao serviço dos homens: um serviço de amor. Este mesmo serviço permitiu-Lhe realizar na sua vida a experiência de um misterioso, mas autêntico « reinar »”.

A Cheia de Graça, ao ser saudada por Isabel, reconhece que tudo de bom que há ali é dom de Deus: “grandes coisas fez em mim o Todo Poderoso” (Lc 1, 49). Quando olhamos para Maria, percebemos a sensibilidade, a generosidade e o serviço ao qual todas as mulheres são chamadas.

Entendemos também que, na Igreja, a verdadeira dignidade não está relacionada ao destaque. Em vida, Nossa Senhora ficou “escondida” na casa de Nazaré, cuidando do lar e da família. Também não há grandes falas suas nas Sagradas Escrituras. Ainda assim, é a maior de todas as mulheres. 

Por isso, o Papa incentiva, na mesma carta:

Seja colocado realmente em devido relevo o «génio da mulher», tendo em conta não somente as mulheres grandes e famosas, do passado ou nossas contemporâneas, mas também as mulheres simples, que exprimem o seu talento feminino com o serviço aos outros na normalidade do quotidiano. De facto, é no doar-se aos outros na vida de cada dia, que a mulher encontra a profunda vocação da própria vida, ela que talvez mais que o próprio homem vê o homem, porque o vê com o coração.

Assim, igual ao homem em dignidade é, em uma vida vivida com feminilidade e doada por amor, que a mulher encontra sua vocação.

 

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